A história de um sonhador que virou exemplo de vida


Dois Olhares, uma grande história para ser lida e relida sobre José Xavier Cortez



Durante um assalto à sua livraria, em 2004, o editor e livreiro José Xavier Cortez, fundador da Cortez Editora e Livraria, deu uma inesquecível lição de moral no chefe da quadrilha, utilizando, para isso, a única arma de que dispunha: a palavra. Como se não bastasse, presenteou o bandido com uma sacola repleta de livros infantis. O objetivo era que os filhos do ‘meliante’ pudessem, por meio das obras, despertar para um destino diferente daquele escolhido pelo pai. Essa e outras tantas histórias são contadas na biografia ‘Cortez – A saga de um sonhador’, de autoria da socióloga Teresa Sales e da jornalista Goimar Dantas.

A obra oferece aos leitores a possibilidade rara de ter acesso a dois olhares diferenciados sobre o personagem. Na primeira parte, a socióloga Teresa Sales faz uma abordagem sociológica da trajetória de Cortez desde o seu nascimento, no Sítio Santa Rita, na cidade de Currais Novos, sertão do Rio Grande do Norte, até sua expulsão da Marinha, após o Golpe de 64, quando Cortez contava 27 anos.

Teresa lança luzes sobre a ancestralidade do biografado, por meio de rico levantamento dos aspectos históricos e geográficos da região de origem do editor. Finaliza com depoimentos contundentes sobre as dificuldades vividas por Cortez e, alguns, de seus companheiros na Marinha, entre os anos 1950 e 1960.

Na segunda parte, é a vez da jornalista Goimar Dantas se debruçar sobre 45 anos de história. Ela resgata desde a chegada de Cortez a São Paulo, em janeiro de 1965, até 1º de março de 2010, data do evento comemorativo dos 30 anos da Editora fundada por ele. Com estilo mais jornalístico e coloquial, a autora imprime às inúmeras aventuras, sucessos e fracassos do protagonista em doses generosas de humor e drama, sempre com o ritmo condizente à vida cinematográfica levada pelo editor na capital paulista.

Importante destacar que o leitor pode optar por uma leitura não linear da obra, na medida em que ela se divide em dois momentos distintos da existência do biografado: sua vida no sertão e na Marinha, além de sua trajetória em São Paulo.

“Afinal, a história de José Xavier Cortez, segundo ele próprio, tem três momentos bem demarcados no tempo: o período da infância e adolescência, no Sítio Santa Rita e imediações rurais do sertão do Seridó; o período da Marinha e seu engajamento na luta dos marinheiros; e o período como empresário, já em São Paulo, que vai se traçando desde a ‘expulsão’ da Marinha até sua gradativa ascensão como editor e livreiro, iniciada durante seus estudos no curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, quando Cortez vendia livros nos corredores da Universidade”, descreve Teresa Sales.


Resumo/ detalhes interessantes da obra:

A parte inicial da história da vida do Cortez nos remete à cultura campesina brasileira, onde o sentido de família é muito forte. As culturas camponesas de produção familiar na agricultura vão muito além do que se conhece no meio urbano, mesmo nas famílias mais unidas. O elemento diferenciador fundamental é que nas famílias de pequenos produtores agrícolas há uma imbricação vital entre a família e as atividades produtivas. O pai não é apenas o pai, mas também o patrão, que está à frente das atividades produtivas, o chefe da família e da produção. Seu poder é, portanto, enorme, maior mesmo do que o dos pais mais patriarcais do meio urbano. Seu poder é absoluto e dificilmente contestado. Advém daí a noção de respeito e de obediência de toda a família – mulher e filhos – e dos agregados; seguindo até os obscuros anos da década de 1960.

Já sua chegada a São Paulo, a segunda parte do livro, nos traz uma narrativa que evidencia a paixão de Cortez por difundir cultura e educação, bem como sua ousadia e generosidade, características que o levaram a se arriscar, nos anos 1970 e 1980, para abastecer seus clientes com obras proibidas pelo regime ditatorial vigente no País. Ao mesmo tempo, já casado e pai de três filhas, Cortez se desdobrava para ajudar familiares e amigos que vieram do sertão para trabalhar em sua empresa. O editor também se tornaria avalista de um grande número de estudantes. Jovens que precisavam de um fiador para alugar os imóveis que os abrigariam durante seus estudos na capital paulista.

“O jogo de cintura e a capacidade de superar obstáculos sempre foram constantes na vida de Cortez, que, anos antes, soube dar um “olé” no que seria a vida previsível da maioria dos migrantes nordestinos. Assim, depois de trabalhar como agricultor, minerador, vendedor de secos e molhados, marinheiro, office-boy, lavador de carros, manobrista e vendedor, o sertanejo achou por bem superar as expectativas e passar no vestibular de Economia da PUC-SP, aos 29 anos. Era 1968 e, uma vez estudante, Cortez decidiu montar uma banquinha para venda de livros nos corredores da universidade. Iniciativa que mudaria sua vida para sempre. Com o tempo, tornou-se livreiro e editor de sucesso, com mais de 700 autores e 1.100 títulos publicados”, nos revela Goimar Dantas.

Retirante nordestino, que fez de São Paulo seu lar e local de trabalho, Cortez foi agraciado com o Título de Cidadão Paulistano, em 2005 e, recentemente, foi tema do documentário “O semeador de livros”, do diretor Wagner Bezerra. Agora, ganha evidência através de ‘Cortez – A saga de um sonhador’, cujo intuito é apresentar ao País um dos personagens mais surpreendentes da história do Brasil recente.

Um sertanejo multifacetado que, conforme trecho que encerra a obra, é “(...) idealista, quixotesco, sonhador, nordestino, índio, paulista. Cidadão daqui, de lá, do mundo! O Cortez por fim, brasileiro: esse ser miscigenado, misto de tudo e, ao mesmo tempo, único. O Cortez em cujo peito pulsa um coração cortês”.


Mais um pouco da história recente do editor José Xavier Cortez, que nunca deixou de lado sua origem e por esse motivo nos brinda com vários ensinamentos, uma história imperdível


Após anos de trabalho incansável, em que não parou sequer as três vezes nas quais se submeteu a tratamentos para vencer a batalha contra o câncer, Cortez acabou por se tornar um gigante do mercado editorial, não raro comparado a editores do porte de José Olympio, Ênio Silveira, Caio Prado Jr., Jorge Zahar, Martins Fontes, dentre outros.

Paradoxalmente, o editor é o terror de sua equipe de vendas. Isso porque vive presenteando clientes com títulos de sua livraria. Um desprendimento que vem desde o início da carreira, quando vendia fiado ou em prestações “a perder de vista”.

Pioneiro, Cortez investiu na publicação de livros de Serviço Social. Graças a essa iniciativa, os profissionais do setor obtiveram, a partir de 1979, publicações que ajudaram a dar o tom das discussões e inovações necessárias à área, não apenas no Brasil, mas também na América Latina e Europa. Com seu jeito simples e informal, Cortez circulou entre os grandes mestres do pensamento crítico brasileiro, como Paulo Freire, Florestan Fernandes e Maurício Tragtenberg.

Apaixonado por forró, ele costuma ciceronear autores, editores e livreiros nacionais e internacionais ao seu local preferido em São Paulo: o restaurante Andrade, em Pinheiros, onde se aprecia a típica comida nordestina e, principalmente, se dança ao som da zabumba, do triângulo e da sanfona.



Ficha Técnica

Cortez – A saga de um sonhador

Autoras: Teresa Sales e Goimar Dantas

Edição: Cortez Editora




Cortez Editora

Fone: (11) 3611-9616

e-mail: cortez@cortezeditora.com.br

Site: www.cortezeditora.com.br

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