Sirva o coração em bandeja de cristal líquido


“Depois de seu bem sucedido livro de estreia - Um certo Almirante e outros contos -, a escritora e jornalista Laïs de Castro lança seu segundo livro de contos, ‘Sirva o coração em bandeja de cristal líquido’, com apresentação da jornalista Marta Goes. O lançamento aconteceu no último dia 25 de agosto, na Livraria da Vila, da Fradique Coutinho, no qual reuniu amigos e fãs da literatura romancista contemporanea. Na ocasião foram vendidos mais de 200 exemplares.

A obra aborda diversos temas e perfis, todos apresentados em contos, de cunho inteligente e que prendem o leitor até a última palavra. No conto inicial, baseado na história de um pobre rapaz, a autora discorre sobre o tema envolto em romance policial, para apresentar a trajetória de vida de um garoto franzino, sem sal ou açúcar, que beijou pela primeira vez uma garota na boca quase aos vintes anos de idade e quando o fez, mordeu sua língua, não agradando a menina. Após, ele iniciou sua profissão “silêncio”  no qual transformou-se em um matador profissional.

 A partir daí, em poucas palavras, com ricos detalhes, conhecemos o que aconteceu com este jovem, que ao final se apaixona pela viúva de sua vitima. Entre tantos contos divertidos, sofisticados e simples ao mesmo tempo em suas narrações, pode-se afirmar que se trata-se de uma obra propícia a diversos momentos, assim como para qualquer perfil de leitor, pois há temas surpreendentes como: “Mãe é mãe”; “Beijo”; “Anu, Mentira e Xerox”; “Botinas Marrons”; entre outros.


Conheça abaixo dois contos do livro:

Sirva o Coração em Bandeja de Cristal Liquido
Por Laïs de Castro

Conto: Beijo (página 33)
“Não existe nenhum disfarce que possa esconder o amor
durante muito tempo onde ele existe, ou
simulá-lo onde ele não existe." (La Rochefoucauld)"

E então aconteceu. Atrás de um armário tosco, na casa mais simples que a mais simples das casas, na casa mais distante que a mais distante das casas. Também ele não tinha nada que estar lá, num cenário que era meu, naquela festa patética, mas que era minha. Porque sempre eu acho que tudo lá é meu quando nada é de ninguém de verdade, desde que o ser humano descobriu que o caminho tem começo, meio e fim. As coisas existem por si mesmas, acontecem independentemente de quem faça a figuração, não se submetem a leis.

Naquele dia, porém, naquela hora, roubei o lugar para mim, o cenário para mim, o casamento para mim, eu me sentia dona de tudo mesmo não sendo dona de nada e pronto, acabou. E não aconteceu por excesso de álcool e não aconteceu por alucinação adolescente, nem nada. Digo isso porque a festa apenas engatinhava e nós deixamos de engatinhar há 45 anos. Juntos, nossos lábios, naquela noite, selaram quase um século de espera. A sabedoria da espera. Todos sabiam que iria acontecer um dia. E o dia chegou, tão simples quando o sol nasce, quanto ele se põe, quanto a lua surge, quanto ela tinge de claridade leitosa o verde das plantas.

Existiam as ruas, as casas, as pessoas, as cadeiras, as mesas, os bancos de jardim, a rádio pirata, as balas de coco feitas para vender, a revista de contos de amor e bebíamos com tal avidez o dia a dia que não sobrava tempo para sonhar. A rotina era um sonho, porém nunca soubemos disso, na nossa imbecil ambigüidade adolescente. Durante o dia eu era uma menina, pique, pega, peguei, barra manteiga da fuça da nega, bisteca não se mexa, sol, muro para pular, goiabeira para subir, galho fino de goiabeira não quebra é resistente como o aço. Madeira de estilingue, quem matar passarinhos vai para o inferno.

À noite os hormônios ferviam, os namorados, as carícias inocentes, o baile com vitrola, o dançar com os amiguinhos aqueles mesmos do futebol do dia. Tempos de molecagem, de nadar em rio límpido, de inventar boleros de rosto colado no clube rústico. Mas havia aquele homem. Noivo, oito anos mais velho, proibido e inaccessível, feio, vigoroso, quente, os olhos gulosos sobre o meu corpo de menina, queimando a minha pele à distância, um estranho e ainda desconhecido desejo que passava a mil quilômetros da minha cabeça e ainda assim me envolvia como a noite envolve a terra. Eu tinha de cor os horários dele, ele tinha de cor os meus. Éramos então como árvores plantadas no caminho, para ver e ser vistos. E o olhar, apenas o olhar, enrubescia o rosto, tremulava as bandeiras da sede, fazia engasgar, tossir, umidecer, que dia, que semana, que mês, que ano e o tempo passou. (... continua – leia o livro “Sirva o Coração em Bandeja de Cristal Líquido – por Laïs de Castro, com prefácio de Marta Goes, Ed. Iluminuras).



Conto: Batom Antigo (página 65)

Todo inferno está contido em uma única palavra:
 Solidão – Victor Hugo”

“... então eu escolho as amoras mais vermelhas e com elas tinjo meus lábios, somo se o batom de minha velha avó tivesse voltado à vida. Como se o sangue regurgitado pelo avô na hora da morte encharcasse a minha boca para embelezá-la. E saio pela noite. À vista do primeiro pecado, ruborizo, mas desisto, pois não é exatamente o busco. Estou caçando um pecado solteiro, de boa aparência, pode até ser tímido... Ninguém que me agrade ao paladar na cervejaria, ninguém no bar da praça, pequenos desvão no terceiro bar, no quarto me sento. E espero. Não fumo, esqueça. Não bebo, esqueça. Espero só que no guaraná, mais de uma hora a fio. O sacrifício se esvai quando surge uma amiga, mais semeada de esperança do que eu e senta e fuma e toma cerveja e fuma e toma cerveja e fuma e toma cerveja e olha e eu olho e olhamos para todos os lados. Esse ritual se repete a cada sábado e domingo e para mim só deu certo uma vez. Isso não me desestimula. Nunca se sabe se aparece por aqui um viajante, um vendedor de bolachas e tem de ficar no hotel por que deixou de visitar alguns clientes cliente. ... Minha avó sempre me dizia que não se despreza pretendentes, com algumas exceções que eu não posso citar aqui porque ela era imersa a preconceitos, alguns engraçados, outros bem próximos do perigo, politicamente incorretésimos, não vou falar, já falei que não vou falar. Essa cidade é pequena e parece que os homens se exilaram, carreira, dinheiro, liberdade ainda que tarde. Aqui tem paz, segurança e ruas desengarrafadas, o que mais tem são ruas vazias, aliás. Eu saio rubra, mas também poderia sair verde de raiva....” (... continua – leia o livro “Sirva o Coração em Bandeja de Cristal Líquido – por Laïs de Castro, com prefácio de Marta Goes, Ed. Iluminuras).

Agradeço desde já pela atenção e espaço na coluna Prefácio. Por gentileza, confirme o recebimento deste e-mail.

Abraços,

Release de divulgação:

Amor é ponto de partida e chegada em novo livro de contos da jornalista Laïs de Castro

Com apresentação da jornalista e escritora Marta Goes,
Sirva o Coração em Bandeja de Cristal Líquido
 reúne riquíssimos contos, marcados por narrativas curtas com desfechos surpreendentes

Depois de seu bem sucedido livro de estreia - Um certo Almirante e outros contos -, a escritora e jornalista Laïs de Castro lança seu segundo livro de contos, Sirva o coração em bandeja de cristal líquido, com apresentação da jornalista Marta Goes.

Em sua nova obra, Laïs apresenta ao leitor 27 contos e o convida a percorrer, em suas 160 páginas, as variações que o amor é capaz de imprimir nas vidas e histórias apresentadas. Da eterna apaixonada que sonha com a visita do ex-namorado que um dia lhe disse “não” ao partir, à mulher que vive o reencontro do amor quando jovem; das crianças que brincam com o cão, Xerox, ao amor de Eliseu pela eterna ex-noiva que lhe deu uma filha à distância no silêncio de sua trajetória. Tudo isso redigido de forma que instiga o leitor a ler o texto do princípio ao fim.

São histórias que comovem, intrigam e que, muitas vezes, surpreendem pela habilidade da escritora em contar histórias como a do amor de uma mãe por seus seis filhos ou a de Antonio – filho de Antonio e Antonia – uma história com sua antítese.

De acordo com Marta Goes, prefaciadora da obra, em Sirva o coração... “os personagens falam com as marcas da existência: sinhazinha, esposa ressequida, matador, marido cruel, avó criadeira e uma apaixonada que arde em fogo sagrado. Com as rédeas da história bem seguras, Laïs brinca com as palavras e suas sonoridades, flerta com a música, trafega pelo arrebatamento sem escorregar para a grandiloquência e chega em alguns momentos à fronteira da poesia”.

Estilo singular
Nota-se claramente o olhar de Laïs de Castro sobre os seres humanos: o transitar do amor pela alma dos personagens e como estes conseguem administrar esse sentimento e seguir adiante. Por amor, as figuras presentes  nos  contos  de  Laïs  vão  às  últimas  consequências em busca da felicidade ou do que se entende por tal.

Dona de um estilo singular, a autora foge das emoções fáceis. Laïs de Castro entende bem dos sentimentos genuínos do ser humano e sabe decrevê-los em suas histórias de modo a conduzir o leitor a momentos e tempos diferentes presentes apenas no coração daqueles que não se disfarçam de si mesmos.

Sobre a autora
Jornalista desde os 21 anos, trabalhou 18 anos na Editora Abril, vários anos na Carta Editorial (sob Luís Carta) e outros mais na Azul. Foi diretora de várias revistas femininas, entre elas Boa Forma, Vida Executiva e Dieta Já. Ganhou três prêmios Abril de Jornalismo, um concurso de contos infantis no Estado do Paraná (1970), o Concurso de Contos Curtos Cidade de Porto Seguro, em 2009. Participou da antologia Le grand Show des Écrivaines Brésiliennes, lançada em 2010 no Salon du Livre de Paris. É autora do livro de contos: Um velho almirante, publicado pelo selo ARX (Siciliano). Atualmente é colaboradora da revista Negócios da Comunicação e do site 50anosdetextos.com.br (sem o www). Participou, como palestrante, da Flipoços 2011. Ministra Oficinas de Contos em Bibliotecas de São Paulo, SP. E dedica-se, com amor redobrado à Literatura.

Ficha Técnica: Sirva o coração em bandeja de cristal líquido
Autora Laïs de Castro;
158 páginas; R$38,00;
Editora Iluminuras, 2011

Fonte: Parceria 6 - Assessoria de Imprensa

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