O menino que lia nuvens

Timidez, construção de identidade, bullying e esoterismo são temas de livro infantojuvenil 



“O menino que lia nuvens”, de Ricardo Viveiros, ilustrado por Cárcamo, conta a história de Aldebaran, um garoto introspectivo que vence o isolamento ao perceber que poderia ler o futuro

Uma família tradicional, um casarão e um menino que é, no entender de todos, um pouco “estranho”. É a partir desses elementos que o jornalista e escritor Ricardo Viveiros constrói a história de Aldebaran, um garoto introspectivo que transcende a timidez e vence o bullying ao descobrir que tem um dom especial.

É este o enredo de “O menino que lia nuvens” (Editora Gaivota, 34 págs., R$ 28,50), livro em que Viveiros, mais uma vez com a sutileza de sua narrativa poética, oferece ao jovem leitor temas pouco usuais no universo da literatura infantojuvenil. Em sua quarta obra para esse público, o autor utiliza ideias que muitas vezes preferimos esconder dos pequenos, como solidão e perda, para mostrar que a construção da identidade é um rito marcado por descobertas – e que exige coragem. 

Desde muito pequeno, Aldebaran chamava a atenção por seu jeito quieto e bem comportado. Diferentemente da maioria dos bebês, que sempre choram ou se reviram no berço, o menino, quando estava acordado, apenas olhava firme para o teto do quarto. Ora franzia a testa como se estivesse intrigado, ora sorria como se na presença de uma pessoa invisível. 

Até fantasma disseram que o menino via, mas o que lhe interessava, de verdade, eram os volumes, sombras, movimentos e cores que identificava para onde olhava – principalmente nas manchas, espumas, marcas e, mais tarde, também nas nuvens.

Já rapazinho, Aldebaran torna-se um excelente aluno, que, devido à sua introspecção, passa a ser discriminado por colegas da vizinhança, da escola e do clube que sua família frequenta. Sofria bullying pelo seu jeito diferente de ser.  

E, nesse processo de se sentir cada vez mais solitário, ele também desperta para um dom especial. Ao observar atentamente as nuvens, como tanto gostava, constata que, diferentemente da maioria das outras crianças, ele via mais do que apenas desenhos de pessoas, animais ou objetos. Aldebaran começa a perceber que era capaz de ler as nuvens como quem lê um livro. E que, por mais incrível que pareça, algumas coisas que ele lia no céu, acabavam por acontecer.

Rapidamente, o dom da premonição torna o menino popular entre os colegas. Mas alguns mistérios permanecem no ar. Durante toda a história, apenas a babá, a avó e o pai de Aldebaran são mencionados. Nada se sabe sobre sua mãe. Não há, sequer, um único retrato dela pela casa, até que um dia, já adolescente, o garoto resolve entrar em um sótão no qual nunca havia estado...

Para ilustrar a obra, o renomado artista gráfico Cárcamo fez algo incomum na literatura infantojuvenil brasileira: aquarelas. Ou seja, como Aldebaran ao contemplar as nuvens, quem olha as belas ilustrações de Cárcamo consegue ver o que é invisível em cada cena.

Do ponto de vista da linguagem, “O menino que lia nuvens” também apresenta uma proposta diferente: sem anunciar uma época específica, reúne personagens, cenários, paisagens, objetos, palavras, expressões e circunstâncias que não fazem mais parte do repertório dos jovens leitores. É o caso, por exemplo, dos nomes das pessoas, como Eleuthério, ou das expressões, como “aos costumes”. 

Ao conter, não apenas ideias, mas toda uma linguagem “estranha” ao universo de seu público, Viveiros faz pensar sobre o que é, de fato, a normalidade, pois ter algo diferente, estranhou ou único é ponto básico da condição humana – ou seja, da própria ideia do que é normal.

Ficha Técnica: 
Livro: O menino que lia nuvens
Autor: Ricardo Viveiros
Ilustrador: Cárcamo
Número de páginas: 34 páginas
Preço sugerido: R$ 28,50


Fonte: 

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