Intelectuais Mediadores

Intelectuais Mediadores


   Ainda são poucos os estudos sobre mediação e mediadores culturais e muitos são os questionamentos que permeiam este campo de atuação. Um deles é a própria identificação dos profissionais da área como intelectuais. O tema é o fio condutor da coletânea de artigos “Intelectuais mediadores”, que chega às livrarias neste mês de julho pela Editora Civilização Brasileira.

  Organizado pelas historiadoras Angela de Castro Gomes e Patricia Santos Hansen, o livro reúne 14 textos que refletem sobre a acepção tradicional do termo ‘intelectual’ e testam as potencialidades da categoria ‘intelectuais-mediadores’, fazendo frente, por exemplo, à dicotomia que hierarquiza duas figuras envolvidas nos processos culturais:  produtores/criadores e aqueles envolvidos na recepção e no acesso aos bens culturais.

   A obra chama atenção justamente para o fato de os criadores e produtores serem considerados como integrantes da cultura erudita e provocadores de alterações profundas nos ambientes artísticos, enquanto aos profissionais mediadores resta o estigma do vulgarizador, como se o profissional estivesse envolvido em uma esfera cultural, menos original, científica e séria.

   Com contribuições da antropologia e da sociologia, os autores analisam as práticas da circulação e da apropriação de bens culturais e inserem tradutores, professores, guias, editores e outros profissionais da medicação cultural na mesma dinâmica de sentido e valor do domínio da criação.

Trecho da apresentação por Angela de Castro Gomes e Patricia Santos Hansen
 (organizadoras do livro)

“Se os estudos de história cultural defendem que todos os sujeitos históricos são produtores de sentido de forma lata (não há receptor/consumidor/leitor/espectador que seja passivo), e havendo, é certo, aqueles identificados como intelectuais criadores de bens culturais, por que os mediadores não estariam incluídos nessa mesma dinâmica de produção de sentido e de valor? Por que seus esforços, buscando colocar os bens culturais em contato com grupos sociais mais amplos, formando públicos, e aproximação de produtos culturais conhecidos, são vistos de forma tão desvalorizada e até negativa? Certamente não é difícil aventar razões para tanto, a começar pelas disputas travadas nos meios intelectuais por reconhecimento, autoridade, posições e públicos. Mas acreditamos que é necessário pesquisar casos específicos e diversos, para se compreender tal contradição.”

Texto da orelha por Fernando Catroga, professor catedrático da 
Faculdade De Letras da Universidade de Coimba

   Rejeitando hierarquizações e dualis­mos, este livro se filia à Nova História Cultural e Política, edificada pelas mais recentes teorias e sociologias históricas sobre os bens culturais. Por isso, valo­riza as dinâmicas sociais e os meios, as redes e os lugares que condicionam tanto a produção como a preservação, a circulação e a apropriação de discur­sos, ideias e representações, ouvidos, vistos, ensinados e lidos em vários me­dia e contextos de recepção.

Ao convocar o conceito de intelec­tual mediador como passeur, aquele que conduz por uma travessia, o livro não afasta o papel criativo ou recriador das suas práticas e mediações que fazem os públicos que também as produzem, num processo que aposta, sobremanei­ra, na rotinização dos bens culturais, alheio às competições geracionais entre tradição e vanguarda, típicas da “alta cultura” desde o Oitocentos.

Da mesma forma que a tradução, que parte de inevitáveis pré-compreensões do mundo, também as práticas de me­diação são dialógicas. Se traduzir é ato de transferir ou de conduzir além, mediar, como prática sociocultural, será sempre inter-mediar, inter-cambiar e miscigenar – ótica historiograficamente rica, como a unificadora introdução deste livro ex­celentemente fundamenta e os estudos de caso aqui reunidos bem comprovam.

Diz-se que, ao eleger-se algo con­temporâneo como objeto de pesquisa, anuncia-se sua morte como realidade viva. De fato, talvez a visão romântica do gênio insulado esteja a definhar. Mas, se o intelectual polemizou contra a so­ciedade, esse combate atravessou sem­pre o interior do seu próprio campo e, hoje, são igualmente intelectuais os que decretam a morte do “intelectual”, esse continuador oitocentista de uma tipo­logia outrora encarnada pela figura do teólogo e do filósofo. E, felizmente, as boas histórias sobre eles não escondem a importância do seu legado quando – como é o caso em apreço – conseguem abrir novos domínios de investigação e suscitar reflexões críticas acerca das metamorfoses que vão ocorrendo na hodierna luta pela hegemonia no cam­po das representações sociais.

Sobre os autores

Ana Paula Sampaio Caldeira é doutora pelo Programa de Pós-Graduação em História Política e Bens Culturais do CPDOC/FGV, onde desenvolveu a tese “O bibliotecário perfeito: o historiador Ramiz Galvão na Biblioteca Nacional” (2015). Este trabalho contou com auxílio financeiro da Faperj.

Angela de Castro Gomes é professora titular da Universidade Federal Fluminense, professora visitante sênior na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, professora emérita do CPDOC/Fundação Getulio Vargas e pesquisadora A-1 do CNPQ. Este texto, revisto e ampliado, foi apresentado no XVII Congresso Internacional de AHILA, que teve lugar na Freie Universität de Berlin, em 2014, Integrando também resultados de pós-doutorado realizado no CeisXX, em Coimbra, em 2010/11.

Eliana Dutra é professora do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisadora do CNPq, autora de Rebeldes literários da República. História e memória no Almanaque Brasileiro Garnier, entre vários outros livros, capítulos de livros e artigos. Este texto é uma versão modificada e ampliada do que foi apresentado, com o apoio do CNPq, no XVII Congresso Internacional de Ahila, que teve lugar na Freie Universität de Berlim, em 2014, no simpósio “Intelectuais, nacionalismo e democracia no mundo ibero-americano”.

Francisco Palomanes Martinho é livre-docente em História Ibérica, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo e pesquisador do CNPq. Organizador (com Antônio Costa Pinto) de O passado que não passa: a sombra das ditaduras na Europa do Sul e na América Latina (Civilização Brasileira, 2013).

Gabriela Pellegrino Soares é livre-docente em História da América Latina e professora associada da Universidade de São Paulo­. É pesquisadora do CNPq e coordenadora da equipe brasileira do projeto Fapesp/ANR “Dicionário de História Cultural Transatlântica, fim do séc. XVIII-XX”.

Giovane José da Silva é Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais/IFSuldeminas. Doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense.

Giselle Martins Venâncio é professora de Teoria e Metodologia da História do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Suas pesquisas se concentram na área de historiografia e nos temas da história dos intelectuais no século XX no Brasil, escrita de viajantes, produção e circulação de impressos, coleções, livros e leituras.

Joaquim Pintassilgo é professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, integrado no Grupo de História da Educação, e investigador da Uidef. Doutor em História pela Universidade de Salamanca­ e autor de diversas obras nas áreas de história da educação e de história da cultura.

Kaori Kodama é pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz­, na área de história das ciências e da saúde. É autora do livro Os índios no Império do Brasil (Edusp; Fiocruz, 2009) e de publicações sobre raça, discurso médico e história da divulgação científica no Brasil. (Nota: A autora agradece às valiosas sugestões de Alda Heizer e Moema Vergara para a feitura deste texto.)

Libânia Nacif Xavier é professora do Programa de Pós-Graduação­ em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Suas pesquisas focalizam a história da profissão docente e a participação de intelectuais e mediadores culturais nos processos educacionais formais e informais. É bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq e vice-presidente da Sociedade Brasileira de História da Educação (gestão 2015-2017).

Luciano Mendes de Faria Filho é professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais. Este texto integra projeto que tem o apoio do CNPq e da Fapemig.

Mara Cristina de Matos Rodrigues é professora associada do PPG em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Profhistória, núcleo UFRGS.

Patricia Hansen é doutora em História Social pela Universidade de São Paulo. Fez pós-doutorado no CPDOC da Fundação Getulio Vargas com apoio do PNAPD da Capes-Faperj, foi Marie Curie Fellow no Instituto de Educação e investigadora visitante no ICS da Universidade de Lisboa. Atualmente pesquisa os livros infantis do acervo da Casa de Rui Barbosa com bolsa de pós-doutorado sênior da Faperj. É autora de publicações nas áreas de historiografia, história da educação, história do livro e da literatura infantil.

Patricia Tavares Raffaini é pós-doutoranda no Departamento de História da FFLCH/Universidade de São Paulo. Esse texto faz parte da pesquisa “Leitura ficcional na infância. 1880-1920” financiada pela Fapesp.

Ficha Técnica:
INTELECTUAIS MEDIADORES
Organização de Angela de Castro Gomes e Patricia Santos Hansen
490 páginas
R$ 54,90
Civilização Brasileira
(Grupo Editorial Record)

Fonte: Assessoria de Imprensa

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