Em novo romance, Nei Lopes lança
 um “misto de realismo mágico afro-judaico e roman à clef brasileiro”

 Autor entrelaça origens da comunidade negra e judaica no Rio ao contar história do  relacionamento do negro Nozinho, que falava até iídiche, coma branca judia Rachel


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Neste O preto que falava iídiche, Nei Lopes, nascido numa família do subúrbio carioca formada na primeira década do século XX, prossegue com seu instigante propósito literário. Com ele, tanto como nas coletâneas Vinte contos e uns trocados e Nas águas desta baía há muito tempo, como no romance Rio Negro, 50, também publicados pela Editora Record, enriquece a ficção brasileira com grande elenco de protagonistas negros. Desta vez, enlaça as vivências e memórias de suas origens com as de outro grupo historicamente marcado pelo racismo, o das comunidades judaicas. E o faz, como sempre, associando leveza e humor a reflexões profundas sobre arte, religiosidade, costumes... Da Praça Onze carioca ao East River nova-iorquino, passando pela Bahia, Porto Alegre e a distante Etiópia. Viagem fantástica!

ORELHA:
Hugo Sukman
Fosse, sei lá, na Colômbia, borboletas amarelas anunciariam a sua presença. Em Praga, talvez ele acordasse metamorfoseado num inseto monstruoso.
Como é na Praça Onze, tem-se a impressão de que a história de Nozinho será sempre precedida de um daqueles carros abre-alas de rancho ou de escola de samba primitiva saudando “a imprensa carnavalesca e geral, os poderes constituídos e as agremiações coirmãs”. Pois lá pelas tantas deste O preto que falava iídiche – um misto de realismo mágico afro-judaico eroman à clef brasileiro na linha de um Lima Barreto, um Coelho Neto, com ecos de um Machado dos contos (notem que dois, dos três, escritores negros e cariocas como ele) – Nei Lopes põe seus personagens a criar mesmo um enredo de rancho: “Rapsódia afro-hebraica”, a estrela de Davi e o machado de Xangô entrelaçados nas alegorias, a encenação da visita da rainha de Sabá à corte do rei Salomão no chão da praça, braços brancos e negros unidos rompendo grilhões.
É de certa forma isso que Nei costura neste seu mais ambicioso romance: do encontro real de duas comunidades degredadas no Rio da primeira metade do século XX, os negros e os judeus, ambos – e guardadas todas as diferenças – povos historicamente perseguidos e escravizados, ele propõe uma saga realista e alegórica sobre uma das formações possíveis do povo brasileiro. Do relacionamento apaixonado, fortuito e proibido do preto inteligentíssimo Nozinho, que falava até iídiche, com a bela e branca judia Rachel, ele nos conduz do ambiente de uma Praça Onze que testemunhava a invenção do samba a uma África que viu desde os judeus se libertarem da escravidão no Egito até a escravização dos povos negros e o mítico amor da rainha de Sabá e de Salomão, antecipando, na Etiópia, Rachel e Nozinho no Rio. Tudo isso em meio a fascinantes personagens, malandros e trabalhadores, judeus e negros, mafiosos e artistas, o caldo fervente do Brasil.
Glória das letras musicais cariocas ao lado de um Aldir Blanc, um Chico Buarque, um Paulo César Pinheiro (e só!) e consagrado por magníficos livros de referência como a Enciclopédia brasileira da diáspora africana em sua já vasta bibliografia de poesia, ensaios e romances, Nei Lopes ainda precisa ser mais apreciado por sua ficção originalíssima e por vir de onde veio: da pena de um sambista negro e suburbano, ao mesmo tempo erudito em coisas da África e da cultura ocidental, e um estilista da bela língua colonizadora.
Este O preto que falava iídiche é o momento da devida atenção à ficção de Nei Lopes.

Sobre o autor: Nei Lopes nasceu em 1942, no subúrbio carioca de Irajá. Ex-advogado, destacou-se como compositor de música popular e depois como escritor, notadamente com o romance Rio Negro, 50 e os contos de Nas águas desta baía há muito tempo, ambos pela Editora Record. Assim, vem acumulando publicações e premiações, como o 58º Prêmio Jabuti nas categorias Melhor Livro de Não Ficção e Livro do Ano, conquistado com o Dicionário da História Social do Samba (Civilização Brasileira), coautoria de Luiz Antonio Simas. Em 2017, por sua “relevância sociocultural”, recebeu o título de doutor honoris causa concedido pela UFRGS.

Fonte: assessoria de imprensa

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